Vejam a velocidade com que os governos levam nosso suado dinheirim...

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma noite na Alemanha


RIO
De costas  para o quadro negro, na sala de aula da escola vazia, o candidato a deputado discutia com 46 habitantes de Hilden, entre oito e dez da noite, os problemas da Alemanha, da Europa, do mundo:
          - A luta pela segurança é a principal preocupação de nosso povo e por isso foi o centro de toda esta campanha. Mas segurança não é apenas a paz contra a guerra. É também a luta contra as demais ameaças que angustiam a humanidade: a crise da energia; o fim do petróleo; as nuvens da poluição industrial sobre as cidades, novamente mostradas pelas fotos dos satélites; o desflorestamento; a miséria dos povos subdesenvolvidos.
         
                                        
 DOM HELDER 
A convite do SPD alemão, o Partido Social Democrata, comandado então pelo chanceler (primeiro ministro)  Helmut Schmidt, estavamos na Alemanha, em setembro de 1980, acompanhando as duas ultimas semanas da campanha eleitoral, quatro representantes dos principais partidos da oposição no Brasil : Ulysses Guimarães (PMDB), José Aparecido (PP), Jacó Bittar (PT), e eu do PDT. O deputado Uwe Holts continuou :
          - Estive no mês passado no Brasil, conversei demoradamente com o grande líder da Igreja na América Latina, o arcebispo Hélder Câmara, e ele me dizia que o desprezo dos países ricos pela miséria dos países pobres é um suicídio que a qualquer instante pode custar-nos um preço extremo.
          A sala ouvia em silêncio, como numa aula de alunos bem comportados. Uma mulher fazia tricô de olhos duros no deputado Holtz, 36 anos, formado em filosofia e psicologia, social-democrata, candidato à reeleição. Lá de trás, um homem de cara vermelha levanta o braço:
          - O arcebispo dom Hélder critica o nosso egoísmo de país rico. Por que ele não critica também o egoísmo que é a construção da Transamazônica, devastando a floresta amazônica?


AMAZÔNIA
           O deputado levanta-se, estimulado pelo aparte:                               
- A estrada é um projeto do governo brasileiro, que eu não discuto, porque não podemos discutir os planos do progresso dos outros. Mas fui informado, no Brasil, de que a estrada não é a principal ameaça à floresta amazônica. A ameaça maior são os grandes pedaços de terra que as multinacionais, algumas delas nossas, adquiriram lá e estão fazendo enormes queimadas e devastações para implantarem seus projetos. E não é só lá que elas agem assim. Elas não combateram, aqui, a redução do chumbo na gasolina, só pensando em seus lucros? Nós estamos exportando, por exemplo, para o Brasil, nossa tecnologia nuclear. E a verdade é que ainda não temos uma tecnologia capaz de dizer que a exploração nuclear seja a melhor solução. No meu entender, em matéria de tecnologia nuclear, deveríamos continuar fazendo testes mas não grandes investimentos. O projeto com o Brasil, o acordo assinado, prevê oito usinas. Agora, parece que só serão construídas duas, porque o Brasil se convenceu de que é melhor investir primeiro em outras fontes de energia, como a hidrelétrica.

                                        
 TRES ARVORES                 

          Mais um levanta o braço e acusa a Câmara Municipal de não haver defendido, como devia, três árvores ameaçadas de serem cortadas. E durante meia hora aqueles 46 cidadãos bem vestidos, bem alimentados, bem comportados e certamente bem empregados, esqueceram o acordo nuclear Brasil-Alemanha, a Amazônia, e discutiam calorosamente o destino de três árvores O deputado retomou a palavra:
          - Temos o dever de assegurar nossa vida, nosso futuro, defendendo a todo preço o meio ambiente. No entanto, as pessoas se sentem ameaçadas em sua liberdade quando o Governo quer limitar em 130 quilômetros a velocidade nas estradas. (iam até 180, 200 km). Precisamos lutar para manter as atuais auto-estradas e não fazer outras cortando a paisagem.
          Dez e meia da noite, ainda conversavam, discutiam. Ninguém falou em salário, inflação, custo de vida, desemprego. Só meio ambiente.


                                        
RIO + 20
          A Rio + 20 mais uma vez mostrou como eles, os países ricos, são. Nenhum quis assumir compromisso de nada. E a americana Hilary Clinton, com aquele cabelo do Bataclan de Gabriela, prometeu 30 milhões de dólares para “o desenvolvimento de toda a Africa” : é menos do que ela gastou para tirar a Monica Levinsk debaixo da mesa de Bill Clinton.


Fonte: Coluna do Sebastião Nery  http://www.sebastiaonery.com.br/visualizar.jsp?id=2058


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