Vejam a velocidade com que os governos levam nosso suado dinheirim...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Duelo

Adolfo, Bispo de Argel - Marmande, 1861 11 

Só é verdadeiramente grande aquele que, considerando a vida como uma viagem que o deve levar a um destino certo, faz pouco caso das contrariedades do caminho e dele nunca se desvia. De olhos fixos na meta a que se destina, pouco lhe importa se os obstáculos e os espinhos do caminho podem lhe causar danos, já que eles apenas o roçam sem o ferir e não o impedem de avançar. Arriscar a vida em duelo para se vingar é uma injúria, é recuar diante das provações que tem que passar. É sempre um crime aos olhos de Deus. Se não fôsseis enganados, como sois, pelos vossos preconceitos•, o veríeis como uma coisa ridícula e uma suprema loucura aos olhos dos homens. 

É crime o homicídio pelo duelo; até mesmo a vossa legislação o reconhece. Ninguém tem o direito, em nenhum caso, de tirar a vida de seu semelhante. É crime aos olhos de Deus, que vos indica vossa linha de conduta. Neste caso, mais do que em qualquer outro, sois juízes em causa própria. Lembrai-vos de que sereis perdoados conforme o que perdoardes. Pelo perdão vos aproximais da Divindade, pois a clemência é irmã do poder. Enquanto uma gota de sangue correr na Terra pela mão do homem, o verdadeiro reino de Deus não terá chegado, reino de paz e de amor que deverá afastar para sempre de vosso Planeta o rancor, a discórdia e a guerra. Então, a palavra duelo existirá em vossa língua apenas como uma lembrança vaga e distante de um passado que não existirá mais, e os homens só admitirão disputar entre si, em competições, a nobre prática do bem.

Santo Agostinho - Paris, 1862 12 

O duelo pode, sem dúvida, em alguns casos, ser considerado como uma prova de coragem física, de desprezo pela vida, mas é de forma indiscutível a prova de uma covardia moral semelhante ao suicídio: o suicida não tem a coragem de encarar de frente as contrariedades e aflições da vida, e o duelista não a tem para suportar as ofensas. O Cristo não vos disse que há mais honra e coragem em oferecer a face esquerda àquele que bateu na direita do que em se vingar de uma injúria? Cristo não disse a Pedro no Jardim das Oliveiras: Coloca a tua espada na bainha, pois aquele que matar pela espada, pela espada morrerá? Por estas palavras, Jesus não condena o duelo? De fato, meus filhos, que coragem é essa, nascida de um caráter violento, sanguinário e colérico, que reage à primeira ofensa?

Onde está, então, a grandeza da alma daquele que, à menor injúria, quer lavá-la em sangue? Mas que ele trema! porque sempre, no fundo de sua consciência, uma voz lhe gritará: “Caim! Caim! Que fizeste de teu irmão?” “Foi necessário sangue para salvar minha honra”, dirá ele a essa voz. Mas ela lhe responderá: “Tu quiseste salvá-la diante dos homens pelos poucos instantes que te restavam a viver na Terra e não pensaste em salvá-la perante Deus!” Pobre tolo! Quanto sangue o Cristo vos pediria por todas as ofensas que Lhe tendes feito! Não somente O machucastes com os espinhos e a lança, não somente O pregastes na cruz infamante, mas ainda em meio à agonia, Ele pôde escutar as zombarias que Lhe foram dirigidas. Que reparação, após tantas ofensas, vos pediu Ele? O último grito do Cordeiro foi uma prece para seus carrascos. Tal como Ele, perdoai e orai por aqueles que vos ofendem. 

Amigos, lembrai-vos deste preceito: Amai-vos uns aos outros, e, então, ao golpe dado pelo ódio, respondereis com um sorriso, e, à ofensa, com o perdão. Sem dúvida, o mundo se voltará furioso contra vós e vos chamará de covardes. Elevai a cabeça bem ao alto e mostrai que a vossa fronte também não receia ser coroada de espinhos a exemplo do Cristo. No entanto, que vossa mão nunca queira ser cúmplice de um homicídio, que permite, digamos, uma falsa aparência de honra, mas que é apenas orgulho e amor-próprio. Ao vos criar, Deus vos deu o direito de vida e de morte uns aos outros? Não! Esse direito somente a Natureza o tem, para se reformar e se reconstruir a si mesma, mas quanto a vós, nem sobre o vosso corpo tendes direitos. Como o suicida, o duelista estará marcado de sangue quando comparecer perante Deus e, tanto sobre um como sobre o outro, a Soberana Justiça atuará em longos e dolorosos sofrimentos. Se Ele ameaçou com sua justiça aquele que dissesse a seu irmão: És louco, quanto mais não será severa a pena para aquele que se apresentar diante d’Ele com as mãos
manchadas do sangue de seu irmão!


Um Espírito Protetor - Bordeaux, 1861 13 

O duelo, que antigamente se chamava de julgamento de Deus, é um desses costumes bárbaros que ainda têm vestígios na sociedade. O que diríeis vós, entretanto, se vísseis mergulhados os dois adversários em água fervente ou submetidos ao contato do ferro em brasa, para decidirem entre si a disputa, e dar razão àquele que suportasse melhor a prova? Vós chamaríeis a esses costumes de insensatos. O duelo é ainda pior que tudo isso. Para o duelista habilidoso, perito na arte, é um assassinato praticado a sangue frio, com toda ação planejada; pois ele está certo do golpe preciso que dará. 

Para o adversário, quase certo de morrer em razão de sua fraqueza e de sua inabilidade, é um suicídio cometido com a mais fria reflexão. Bem sei que, muitas vezes, se procura evitar essa alternativa, igualmente criminosa, elegendo-se o acaso como juiz. Mas, então, não é isto, de uma outra forma, voltar ao que se chamava julgamento de Deus, da Idade Média? E ainda naquela época éramos infinitamente menos culpados. Até mesmo a denominação, julgamento de Deus, indicava uma fé, ingênua, é bem verdade, mas enfim uma fé na justiça de Deus, que não podia deixar morrer um inocente, enquanto, num duelo, tudo se lança à força bruta, de tal maneira que o ofendido é quem geralmente morre.

Estúpido amor-próprio, tola vaidade e louco orgulho! Quando os trocareis pela caridade cristã, pelo amor ao próximo e a humildade, das quais o Cristo deu o exemplo e o ensino? Somente então desaparecerão esses costumes monstruosos que ainda governam os homens e que as leis são impotentes para reprimir, pois não basta impedir o mal e exigir o bem; é preciso que o princípio do bem e do horror ao mal estejam gravados no coração do homem. 

Francisco Xavier - Bordeaux, 1861 14 

Que opinião terão de mim, dizeis freqüentemente, se recuso a tirar satisfação que me é cobrada, ou se não a exigir daquele que me ofendeu? Os loucos, como vós, os homens atrasados, vos censurarão, mas os que são esclarecidos pela chama do progresso intelectual e moral dirão que agistes com verdadeira sabedoria. Refleti um pouco: por uma palavra muitas vezes dita sem querer, ou até mesmo inofensiva, da parte de um dos vossos irmãos, o vosso orgulho já fica machucado, vós lhe respondeis de uma maneira agressiva e acontece a provocação. Antes de chegar ao momento decisivo, perguntai-vos se agistes como cristão? Que contas prestareis à sociedade se a eliminais de um de seus membros? Pensai no remorso de ter tirado o marido a uma mulher, um filho à sua mãe, às crianças o seu pai e com ele o sustento delas? Certamente aquele que fez a ofensa deve uma satisfação. Mas não é mais honroso para ele dá-la espontaneamente, reconhecendo seus erros, do que arriscar a vida daquele que tem o direito de se queixar? Quanto ao ofendido, concordo que, algumas vezes, pode se encontrar gravemente atingido, seja em sua pessoa, seja em relação àqueles que lhe são caros.

Não é somente o amor-próprio que está em questão. O coração está também ferido e sofrendo, mas, além de ser estupidez jogar sua vida contra um miserável, capaz de infâmias, mesmo que morto o infamante, deixará, por isto, a afronta de existir? Não é certo que o sangue derrama do produzirá mais barulho sobre um fato que, se for falso, deve esquecer-se por si mesmo e que, se for verdadeiro, deve se esconder no silêncio? Resta-lhe, portanto, a satisfação da vingança executada, nada mais. Triste satisfação que, freqüentemente, já nesta vida deixa insuportáveis remorsos! E se o ofendido morre, onde estará a reparação? 

Quando a caridade for a regra de conduta dos homens, eles de verão ajustar seus atos e palavras ao ensinamento de Jesus: Não façais aos outros o que não quereríeis que vos fizessem. Aí, então, desaparecerão todas as causas de desavenças e, com elas, os duelos e também as guerras, que não passam de duelos entre povos!

AMAI OS VOSSOS INIMIGOS

Agostinho - Bordeaux, 1861

O homem do mundo, o homem feliz, que por uma palavra ofensiva, um motivo insignificante, arrisca a vida que recebeu de Deus, e arrisca a vida de seu semelhante que pertence a Deus, é cem vezes mais culpado do que o miserável que, empurrado pela cobiça, algumas vezes pela necessidade, se introduz em uma casa para roubar e mata aqueles que tentam impedi-lo. Esse último é quase sempre um homem sem educação, que tem apenas noções imperfeitas do bem e do mal, enquanto o duelista pertence sempre à classe mais esclarecida. Um mata brutalmente; o outro, com método e regras definidas, o que faz com que a sociedade o desculpe. Acrescento ainda que o duelista é infinitamente mais culpado que o infeliz que, levado por um sentimento de vingança, mata num momento de desespero. O duelista não tem de modo algum como desculpa o sentimento da violenta emoção, pois
que, entre o insulto e a reparação, existe sempre um tempo para se refletir. Ele age, portanto, fria e planejadamente. Tudo é calculado e estudado para matar com mais segurança seu adversário. É bem verdade que ele arrisca sua vida, e é isso o que justifica o duelo aos  olhos do mundo, porque vêem nele um ato de coragem e de desprezo pela própria vida. Mas existirá verdadeira coragem quando se está seguro de si? O duelo data dos tempos selvagens, quando o direito do mais forte era a lei. Ele desaparecerá com uma análise mais criteriosa e justa do que é o verdadeiro ponto de honra e à medida que o homem tiver uma fé mais viva na vida futura.

Nota: Os duelos tornaram-se cada vez mais raros e se ainda vemos de vez em quando alguns dolorosos exemplos, o seu número não é mais comparável ao que foi no passado. Antigamente, um homem não saía de casa sem prever um confronto e conseqüentemente sempre tomava suas precauções. Um sinal característico dos costumes daqueles tempos e dos povos era o uso do porte habitual, de forma visível ou não, das armas defensivas e de ataque. A abolição desse uso já testemunha o abrandamento dos costumes e é curioso seguir-se a escala, desde a época em que os cavaleiros somente cavalgavam com armaduras de ferro e armados de lança até o uso simples da espada, tornada mais tarde apenas um enfeite, um acessório de nobreza e não uma arma agressiva. Uma outra característica do abrandamento dos costumes é que, antigamente, os combates pessoais aconteciam em plena rua, diante da multidão que se afastava para deixar o campo livre, e, hoje, se ocultam. Hoje, a morte de um homem é um acontecimento que provoca emoção, enquanto, antigamente, ninguém lhe dava atenção. O Espiritismo apagará esses últimos vestígios de selvageria, colocando na mente dos homens o espírito de caridade e de fraternidade.

Retirado da obra O evangelho segundo o espiritismo. de Alan Kardec

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