Vejam a velocidade com que os governos levam nosso suado dinheirim...

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Rede social...


Depois de quase uma hora chacoalhando em um coletivo lotado, mesmo ante a simpatia de guerreiros trabalhadores e trabalhadoras que iriam iniciar o labor, chego com satisfação ao ponto em que eu desembarcaria. Caminhei quatro quarteirões a observar o transito caótico da manhã em grande avenida e enfim cheguei ao meu destino. Endereço e clínica já conhecidas, mas havia algo novo e eu não conseguia descobrir.

Depois de muito olhar pela vidraça descobri que a porta não era mais automática. Tinha uma faixa que em tom imperativo dizia: PUXE. Puxei e entrei… A moça me encaminhou para o setor onde seria atendido. Entrego a documentação e fico aguardando ser chamado para os procedimentos administrativos, sabendo que a espera seria longa. Já não tinha chegado tão cedo e muitos já se encontravam à minha frente.

Pego um exemplar da revista Planeta e me sento junto de um senhor que examinava alguns papéis. Cabelos grisalhos, corpo meio franzino de aparência tranquila, vez por outro me focava com o olhar por sobre a lente dos óculos. Marquei o senhor (seria um espião?) e pensei: “-Também estou de olho no senhor.” Pus-me a folhear Planeta lendo com mais atenção assuntos interessantes divagando pouco nas peças publicitárias e segui. Vez enquanto levantava a cabeça flagrava o senhor grisalho me observando. Discretamente ele voltava a mexer em seus papéis.

Finalizo a leitura e inocentemente destaco a etiqueta de identificação do dono do exemplar. “-Mas para que querias mesmo o DNA do proprietário da tal publicação?” Eu ouviria esta indagação, depois da paranoia que me tomou conta dos pensamentos. Pensando não está sendo observado dobro-a e coloco na carteira. O Senhor protagonista deste enredo me observa com olhar reprovador… Sem jeito, e já amarelado, solto um sorriso sem graça e penso: “-Será que ele notou mesmo eu fazer isso? Vai me denunciar? Retiro a peça da carteira e sem sucesso tento colar de volta no lugar… Como disse: -Sem sucesso…” Mas já tinha feito a besteira. Duas câmeras também testemunharam meu “ilícito”.

Tinha que me desfazer da prova do crime, (a etiqueta) mas também precisava muito da mesma… E agora? Poderia ter me privado daquele vexame. Ido ao WC e lá me apossado da mesma sem as vistas de testemunhas… Mas não… Não tinha como voltar atrás.

Olho novamente para as câmeras, para o senhor espião e para todos os presentes discretamente. Cruzo a perna direita sobre a esquerda, coloco um grande envelope sobre a revista, e o conjunto sobre meu cólon e pernas… Pronto! Como num passe de mágica camuflaria tudo e ainda levaria para casa o objeto de minha cobiça. Sem chamar a atenção. Rasgo a costura e abro uma pequena brecha na barra da calça, dobro em forma de cigarrilha a bendita etiqueta e enfio lá. Me asseguro de que a mesma está bem fixada no embanhado da calça até ser resgatada em lugar apropriado. Tudo às escondidas. Poderiam até desconfiar de meus movimentos, mas quem imaginaria estar eu escondendo na barra da calça uma simples etiqueta? Me tranquilizo um pouco, mas sem baixar a guarda. Mantenho vigilância no comportamento dos personagens já descritos. O medo de ser desmascarado ali como uma ondo do mar, ora baixava ora aumentava… Tenho que administrar isso… Pensei com as mãos geladas e suorentas…

De repente: “-Senhor Auzenhawer?” Aquele nome penetrou em meus ouvidos como alfinete… Pronto… Feito estátua de gelo eu fico estático na cadeira… Sem saber quem pronunciava novamente eu ouço: “-Senhor Auzenhawer?” E nada de resposta… Pronto… Eu tinha sido descoberto… Um agente da Gestapo estava alí e me levaria… Crio forças, levanto a cabeça e vejo um senhor de postura física avantajada, vestindo calça amarelada e camisa branca de óculos de pé bem à minha frente. Era ele… Sim… Era ele o tal de Auzenhawer… Convidado pela moça detentora da vóz ele a segue… Iriam para sala de exames ou iriam planejar como me prender… Dúvidas e medos… Medos e dúvidas… Me prenderiam alí mesmo? Esperariam para depois dos exames que eu faria, razão de eu está alí… Ou o que é pior… e isso me paralisava: “E se durante os meus exames, ao invés de contraste ingetassem cloreto de patássio… Ai… ”


Pronto! Eu realmente estava frito… De repente os espaços brancos e iluminados da suntuosa e moderna clínica se transformaram em um labirinto de cor marrom típico dos porões onde se jovagam prisioneiros políticos na primeira metade do século passado. O cenário era devastador. Eu poderia sair dalí correndo… E se me pegassem? Poderia erguer a cabeça e perecer como todo espião cabra macho… Enfrentar. Sem medo! Seja o que Deus quiser… A etiqueta está comigo, o senhor grisalho não é páreo para mim, (e se fosse? Que feio, apanhar de um septuagenário!!!) O problema mesmo era Auzenhawer. Não o via mais por alí… Talvez fossem fazer tudo discretamente para não chamar a atenção… Era isso… O medo voltou… O Silêncio continua, já é quase meio dia, as pessoas estão aos poucos indo embora e eu no meio dos poucos que ficaram. Não vi o sr.. Auzenhawer a exemplo dos demais retornar… Era ele… Sim, era ele o agente que me interrogaria…

-Mr. Dom Manepa?
-Sim… sim… respondo reticente…
-Pois não, o senhor pode me acompanhar?
-Sim… 

A vontade era de sair correndo… Já na sala de exames o diálogo frio:

-Deite-se nesta maca e relaxe... -Vou dar um pequeno beliscão em sua veia… 
-Tu… tu… tudo bem…
-Não irá doer… você vai sentir um leve sono…
Por questão de orientação temporal eu pergunto: -Que horas são?
-Meio dia e dez minutos… Deite-se por favor e relaxe… Você vai… E me aplica uma substância na veia…
Por questão de orientação… Eram 12:10 AM, e começo a contar, batendo com o dedo maior de todos em minha perna, 1… 2… 3… 4… 5… ; 13…

Isso mesmo… treze fora a lembrança de meu último minuto consciente, para acordar examinado, eu tenho a prova pois recebi o resultado logo após o que se segue:

Atordoado acordo com uma voz a falar: -Dom Manepa? Tudo bem? Pode levantar…
-On… on…. onde estou?
-Fique tranquilo…
-On… on…. onde estou?
-Fique tranquilo… Dr Auzenhawer vem já falar com o senhor…
-Não… não pode ser… Eu estava certo em minhas desconfianças… Era realmente Dr. Auzenhawer o agente se passando por paciente… Pensei... (não foi com meus botões pois estava de bata hospitalar e elas não possuem botões… minha roupa tinha ficado em outra sala…)
-Onde está esta mardita etiqueta? Gritou Auzenhawer adentrando à sala onde eu me encontrava
-N… nã… Não sei… Não a peguei…

E se a descobrissem escondida na barra da minha calça… Eu estava morto…
-Pegou sim… Gritou Auzenhawer… Fritz, (só depois eu viria saber que o senhor de cabelos grisálhos era Fritz) viu você destacando e guardando na carteira. E nossas câmera também filmaram tudo…

Eu estava realmente certo em minhas desconfianças… Não era imaginação… Tudo… Todos ali me flagraram roubando a etiqueta… E agora meu Deus…

-Me entregua o mardita desta etiqueta!!! Sabemos que está com ela…

A sala extremeceu com o grito ensurdecedor de Dr. Auzenhawer…

Continua no capítulo final...